YLAI, as Mulheres-Maravilha da vida real, e o exercício de enfrentar nossos medos

Um ano atrás, no final de junho, eu tinha recebido o diagnóstico de Papeira e estava com febre, dores musculares e me sentia constantemente cansada. Apesar de estar doente, aquela semana se tornou muito especial para mim.

Na quarta-feira, dia 29 de junho, eu recebi um e-mail do YLAI. O e-mail dizia que eu havia sido selecionada como semi-finalista dentro de 4 mil aplicantes, e informava que o estágio final seria uma entrevista que deveria ser finalizada até domingo, dia 2 de julho.

O YLAI Professional Fellows é uma iniciativa do governo dos Estados Unidos, criada pelo presidente Obama. O objetivo do programa é conectar jovens empreendedores e líderes de organizações da sociedade civil, de toda a América, através de uma rede (YLAI Network), e capacitar esses jovens para que possam potencializar a si mesmos e também suas iniciativas. Serão 250 jovens participantes, representantes de 36 países, líderes de diversas iniciativas, todos buscando o mesmo ideal: contribuir para um mundo melhor.

Depois, eu recebi outro e-mail da equipe do YLAI com instruções sobre como me preparar para a entrevista. Durante o resto da semana, eu fiquei de repouso e precisei lidar com as expectativas de fazer a entrevista e ao mesmo tempo esperando me sentir melhor para que pudesse fazê-la. Como você pode imaginar, eu consegui apenas me recuperar e não tive tempo nenhum para me preparar ou pensar sobre possíveis respostas, como o e-mail instruía. No sábado, eu acordei cedo porque eu estava muito ansiosa para dormir, e me preparei para a entrevista da forma apropriada — eu estava no meu escritório em casa, mas calcei os sapatos para me sentir mais profissional. Quando a entrevista terminou, eu tive um sentimento de esperança e confiança.

Ainda assim, precisei esperar por um mês até receber os resultados. Eles vieram no dia da abertura das Olimpíadas, no Rio de Janeiro. O e-mail dizia que eu havia sido selecionada para ser uma YLAI Fellow. Eu me senti tão grata e feliz, que palavras não conseguiriam expressar. O que eu não sabia naquela época era a profundidade da transformação que o YLAI causaria na minha vida.

Cercada dos jovens mais inspiradores possíveis. Você deve ter ouvido alguma variação da frase que diz: você deve se rodear de pessoas inspiradoras. Quando você escuta essa frase como um empreendedor, você entende o motivo: as pessoas ao nosso redor nos dão exemplos e modelos a serem seguidos. Imagine, então, que você está cercado dos 240 jovens mais promissores e inspiradores que você poderia conhecer. Agora, imagine que essas pessoas compartilham ambições e sonhos similares aos seus, e você tem a chance de compartilhar e trocar experiências com elas.

No primeiro dia da abertura do YLAI, eu me senti completamente perdida. Eu sabia que cada pessoa que eu conhecesse teria histórias de impacto e experiências para compartilhar. Foi um sentimento avassalador que eu ainda consigo sentir enquanto escrevo este artigo. Poucas pessoas terão na vida a oportunidade de conhecer tantos jovens inspiradores de diferentes culturas e contextos. Uma energia contagiante enchia a sala, foi uma experiência tão transcendente que não seria possível se preparar antecipadamente para vivê-la.

Hoje eu quero compartilhar com você um dos maiores aprendizados que eu tive, e tem a ver com ser uma mulher empreendedora e enfrentar os meus medos.

As limitações invisíveis para as mulheres. Eu tive a sorte de ser criada sendo cercada por mulheres fortes que me deram exemplos de coragem, liderança e amor. Como resultado, eu cresci acreditando que eu não tinha nenhuma limitação por ser mulher. Comecei a desafiar esses paradigmas quando me tornei representante de turma na escola, quando eu tinha entre 11 e 12 anos de idade. Durante a minha jornada, eu sempre trabalhei para ser o melhor que eu pudesse ser. Ainda assim, cresci ouvindo muitas vezes que eu era uma pessoa que transmitia “respeito” (você vai entender o que isso realmente significava um pouco adiante no artigo).

À medida que eu me tornava mais velha, eu percebi que haviam algumas limitações invisíveis para as mulheres, que eu não via quando era mais nova. Essas limitações eram impostas pelas estruturas dominantes e eram reforçadas pela mídia, filmes, revistas, e até mesmo outras mulheres.

Para a maior parte das estruturas postas que existem, as mulheres são as protetoras, as amorosas e as cuidadoras. Elas devem sempre levar os outros em consideração e ignorar os próprios sentimentos se for necessário. Elas devem ser cooperativas e sempre ouvir o que os outros têm a dizer. No mundo de liderança, elas nunca devem dar ordens porque podem soar muito arrogantes. Elas não podem ser muito resolutas ou firmes, sob o risco de serem chamadas de “mandonas”. (Obs.: No texto original em inglês, eu usei a palavra “bossy” e inseri referências de pesquisas comprovando que é uma palavra mais associada a mulheres do que a homens. Não encontrei pesquisas em português que pudessem fazer a mesma comparação. Se você que está lendo este texto souber de alguma fonte, eu adoraria receber para inserir aqui e enriquecer o texto).

É verdade que a realidade tem mudado muito desde os movimentos feministas dos anos 60 e recentemente, com novos atores e novas vozes ao redor do mundo. Contudo, se a sociedade está questionando o status quo agora, podemos imaginar que vai demorar algum tempo até que isso se torne padrão — em outras palavras, até que se torne o novo normal.

Mulheres-Maravilha da vida real

Posteriormente, eu entendi que o “respeito” que eu transmitia deveria ter uma ligação com a minha determinação e coragem. Isso poderia ser visto como “exagerado” para uma mulher. Na jornada empreendedora, além de trabalhar para gerar uma mudança positiva no mundo, eu também descobri como fazer a diferença nesses estereótipos.

Como você pode imaginar, os tomadores de decisão que eu me reuni ao longo da minha caminhada foram na sua maioria homens. A posição de líder, fundador e CEO é geralmente associada a homens — os exemplos também. A maior parte das posições de liderança no mercado como um todo, de pequenas iniciativas até as maiores, também são preenchidas por homens. Felizmente, as organizações mais abertas e inovadoras estão liderando a onda de mudança nessa questão, debatendo a diversidade e a inclusão. O YLAI é uma dessas iniciativas. No grupo representando o Brasil, éramos 10 mulheres num total de 20 integrantes.

Durante o programa, eu experienciei algo especial: eu estava rodeada das Mulheres-Maravilha do mundo real — e elas eram todas empreendedoras. Eu pude ver a humanidade por trás daquelas mulheres fortes e bem sucedidas — algo nem sempre mostrado nas notícias. Nós compartilhamos medos e pensamentos sobre nossas vidas profissionais e pessoais. Elas estavam liderando seus times na jornada empreendedora e nós estávamos debatendo negócios e ambições para o futuro. Ao mesmo tempo, todas nós tínhamos nossas próprias individualidades e características de personalidade.

Eu devo confessar que em algumas situações eu reagi no modo automático e também fui crítica em relação a elas. Quando isso aconteceu, eu entendi como os estereótipos podem ser profundos: eles não estão somente lá fora, mas também dentro de nós. Eu também os carregava e deveria ficar atenta (para combatê-los).

Ao testemunhar aquelas mulheres incríveis sendo humanas com suas forças e fraquezas, medos e esperanças, eu senti um nível de auto aceitação que eu nunca tinha sentido durante os últimos 27 anos da minha vida. Eu sei que a representatividade feminina no YLAI é uma preocupação autêntica: o YLAI sabe como é importante dar voz e reconhecimento às mulheres. No mundo real, entretanto, nós precisamos fazer isso por nós mesmas, e isso começa quando enfrentamos nossos medos escondidos.

Enfrentando meus próprios medos

Quando eu entendi quantos medos escondidos eu tinha, eu decidi que o YLAI seria o ponto de virada da minha vida: eu começaria a enfrentá-los, um depois do outro. Naquele momento, isso significava tomar algumas decisões difíceis sobre o projeto que eu tinha fundado e estava representando no YLAI. Por que eu estava atrasando essas decisões? Eu estava com medo de enfrentar o meu maior medo, que era não ser entendida ou socialmente aceita pela minha equipe, nossos apoiadores, e pela sociedade em geral. Sabe, aceitação social é algo que todos nós, em algum nível, buscamos. Afinal, somos humanos. Porém, quando a aceitação social se coloca entre você e sua verdadeira essência, você precisa fazer uma escolha.

Ou você vive uma vida onde você acha que está sendo aceito(a) por todos, mas não reconhece a si mesmo, ou você escolhe viver uma vida onde você é verdadeiro(a) com você mesmo(a) e sabendo que você não será aceito(a) por todos. A verdade por trás dessa escolha é que o caminho da aceitação total é uma ilusão: somente é possível nos nossos pensamentos. Você sempre será criticado(a) por alguém. Então, quando eu voltei, eu decidi enfrentar as decisões que eu estava adiando.

Quando eu estava debatendo essas decisões com a pessoa que eu mais confiava na equipe, ela me disse algo impactante. O que ela disse foi: “Sabe, você está tomando algumas decisões que precisam ser tomadas. Isso não significa que esse é o único caminho certo, mas significa que uma direção foi escolhida para ser seguida. No entanto, é triste saber que pelo fato de você ser uma mulher liderando essa mudança, você será mais criticada e mal-entendida por causa disso do que se você fosse um homem”.

Eu sabia que ela estava certa, então nós debatemos como o exemplo que estava dando era significativo para outras mulheres e para combater esses estereótipos. Enquanto eu estou escrevendo este post, eu ainda enfrentando as consequências daquelas decisões. Os resultados delas ainda são desconhecidas para mim — algo normal na vida empreendedora. Ser um empreendedor é uma aventura sem fim. Uma das maiores recompensas disso, contudo, tem a ver com encontrar a si mesmo no processo. Eu nunca havia sido mais verdadeira comigo mesma do que nos últimos meses. Eu abracei a mim mesma e vim enfrentando meus maiores medos desde então. Ainda que eu considere esse processo contínuo — como sempre é quando nos referimos a crescimento e desenvolvimento pessoal, eu sempre serei grata ao YLAI por ter sido o ponto de ignição dessa mudança.

Camilla Borges Costa é administradora, internacionalista, empreendedora de impacto e consultora. Esteve entre os 20 brasileiros selecionados participar da primeira edição do programa Young Leaders of Americas Iniative (YLAI), programa criado pelo ex-presidente Obama para estimular o empreendedorismo na América, que reuniu mais de 240 jovens empreendedores nos Estados Unidos, em 2016. É fundadora e Presidente do Politiquê?, projeto que promove o empreendedorismo cidadão e já impactou mais de 3.000 jovens. É cofundadora da Thiki, negócio social com o objetivo de formar jovens éticos e preparados para os desafios globais do século XXI através novas metodologias educacionais. Também teve experiências no SEBRAE, Walt Disney World e na AIESEC. Em junho de 2016, foi indicada pela Revista Época como uma das 18 pessoas jovens que estão fazendo a diferença no Brasil.

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